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Quando chega a ocasião de aplicar a ética Imprimir e-mail
15-Jul-2010

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Sabe-se que se deixou de ser novo quando escrevemos “sou do tempo em que”. Pois, eu sou do tempo das Rádios de autor e pertenço àquela geração de pessoas doentes pelos Media, que levam os jornalistas a sério e curtem os programas de informação.

Por isso, e porque trabalhei meia dúzia de anos nos estúdios da Sampaio e Pina, senti o passamento do Rádio Clube e o despedimento dos seus 36 colaboradores, jornalistas em grande número.

Mas, para além dos aspectos pessoais, é na qualidade profissional de consultor de Comunicação que escrevo estas linhas. Uma consultora de Comunicação, como o seu nome indica, é uma instituição que pretende fazer propagar ideias, iniciativas e argumentos para que estes atinjam os seus destinatários, os públicos-alvo do nosso jargão.

Ora, a menos que se trabalhe para nichos de nichos, os Media constituem os canais fundamentais para essa propagação. É através deles que nos chegam os alertas e os estímulos, é com eles que estabelecemos relações de cumplicidade baseadas nas matérias-primas que temos em comum – os factos, os protagonistas, os documentos de interesse público, os eventos, as campanhas.

Mesmo no tempo dos agregadores, a morte de um jornal, de uma rádio ou de uma TV constitui sempre um prejuízo para a nossa vida em comum – porque dela decorre a diminuição do valor essencial da pluralidade – e um relativo estrangulamento da nossa actividade empresarial. Menos Media significam menos oportunidades de comunicação, menos contactos, menos públicos, menos canais.

Só os fanáticos é que se podem regozijar com o encerramento dos Media que não controlam. Os profissionais da Comunicação como eu sabem que os Media não se controlam e que se querem vivos. Para que se influenciem e para que nos influenciem.

Penso ter deixado claro o quanto considero crítico para a Consultoria de Comunicação e Relações Públicas o relacionamento entre os Media e as empresas do nosso sector.

Por isso estranho que o exercício da ética, tantas vezes reclamado para cenários difusos e inconcretizáveis, não seja considerado em situações tão concretas como a que se viveu com o Rádio Clube.

Se há casos em que uma Consultora de Comunicação deve invocar o estatuto de objecção de consciência para recusar um contrato ou uma prestação de serviços é o do encerramento de um Meio e o do despedimento de jornalistas e outros profissionais de Comunicação. De facto, custar-me-ia ver colegas meus ou consultoras concorrentes envolvidas na gestão mediática deste tipo de crises.

Porque não chega estar sempre a chamar a ética. É preciso deixá-la entrar quando ela precisamente nos bate à porta.

Luís Paixão Martins
Consultor de Comunicação

PS: A publicação deste artigo foi inicialmente proposta à Meios. Foi-nos sugerida a publicação noutro jornal. Insistimos com o seguinte argumento: “Porque o editorial da semana passada transmite a falsa ideia de que existe algum preconceito da LPM em relação à Meios. Com o envio e pedido de publicação do artigo essa falsa ideia fica desfeita". Mais tarde, foi-nos dito que não havia espaço na edição seguinte e que teríamos de esperar pela outra. Sem prejuízo de compreender os cuidados da Meios para com os seus aliados e como o tema é de actualidade, optámos por propor a sua publicação ao Briefing.

 

Sobre o fecho do Rádio Clube, post do jornalista Emídio Fernando.  

 

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